domingo, 13 de dezembro de 2009
Até que a indesejada das gentes os separar
Esperando na janela
sábado, 22 de agosto de 2009
Uma quadra
Rua Do Amanhecer com Rua Algodão-Doce.
Maria. Treze anos. Sonhos e malabares coloridos no semáforo. Tem borboletas no estômago, lugar de fome. Ama aquele moço que passa todos os dias segurando uma maleta. Não sabe seu nome, mas ontem ele quase esbarrou nela. Pediu desculpas. Ela se apaixonou.
Rua Algodão-Doce com Rua Rubi.
Mônica. Vitrines. Pequenos prazeres em caixas e latas. Glamour. Acostumou-se tanto com a solidão, que a tomou por companheira. Presentes.
Rua Rubi com Rua Meia-Noite-e-Meia.
Pamella. Casada, dois filhos. Começou assim por vaidade. Sempre maquiada, roupas exuberantes, salto alto. Homens a procuravam. Sentia-se desejada. Agora é o marido que a manda ir pras ruas, diz que essa é sua vocação, que precisa dar comida aos filhos e tem contas a pagar. Olhos fundos por trás da maquiagem.
Rua Meia-Noite-e-Meia com Rua do Amanhecer.
Isa. Flor se despetalando em orvalho. Já teve borboletas no estômago. Desejou e sentiu-se desejada. Alugou um quarto no centro da cidade. É lá seu ateliê. Expõe abstratos dentro de si mesma. O céu em lusco-fusco. Mais um dia. Só.
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Clarice Lispector, Água Viva
Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
Composição: Edu Lobo/Chico Buarque
ferro e vapor
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
sombras em azul-turquesa

Pôs o disco a tocar. Era sempre a mesma canção.
Chove lá fora e aqui.
Dentro.
Espremeu-se. Experimentou-se. Não queria suportar, queria sentir a fragilidade.
Palavras ou sussurros delas ficavam borbulhando. Pareciam vir de seu estômago. Era tão ardido e cruel. Sentia que a qualquer momento iria expelir, pela boca mesmo, golfadas de uma existência inassimilável.
Abriu a boca o mais que podia.
Silenciou seus escândalos.
Escorriam lágrimas e um sumo amargo. Estremecia e já conseguia respirar aos poucos.
Era com dificuldade que sabia ser.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Confidência

Tanto vermelho em flor. Tanto sangue derramado. Tanta vida em suavidade.
Tocou naquela que os espinhos pareciam bem definidos. Tomou-a para si.
Regou. Cultivou.
O que não sabia é que precisaria dar gotas de sangue diariamente para manter o tom escarlate da amada.
Intermitente

O banho quente lhe escaldou a pele.
O vinho tinto fervilhou suas entranhas.
superfície
artífice
Mas era de vermelhos e abstinências que se fazia em carne. Viva.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Mosaico

tinha um tubo de Tenaz na gaveta
já servia.
desperta de um sono hipnótico, a senhora cumpriu com exatidão a ordem que lhe deram
colou seus pedacinhos um a um
juntou cores, dores, estragos e cola branca
sem queixume nem revolta
fez bonito. Pendurou na sala de estar.
Cenário
Drama, ato único
mesa
Duas cadeiras
o violoncelo
clarice lispector, guimarães rosa, saramago
Tears are in your eyes
penumbra
vermelhos e verdes
o – que – não – sei
Pausa
A minha e a tua
xícara de café
chá preto com canela
madrugada
Biombo rasgado
orvalhos
Ao fundo ouve-se “Althought you don't believe me you're strong. / Darkness always turns into the Dawn. / And you won't even remember this for long.../ When it ends allright.”
O facho de luz que ilumina as faces vai progressivamente se apagando.
segunda-feira, 6 de julho de 2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009
Ranhuras

domingo, 7 de junho de 2009
Cigana
de ir e vir

em tudo era pego de surpresa.
até que um dia chupou uma mexerica.
e reconheceu Magnólia, a amada.
O ser e a rosa tácita

- humm.. o que foi?
- tem uma rosa escorrendo vermelha, ali. É um vermelho morno e cansado. e bonito, também
- parece tão dissimulada, essa flor-da-pele
- ah! Ela está só desabrochando
- mas me assusta, sabe...
- é a alquimia mais divina que implora aqui
- Dói?
- Tem tanto branco lírico,em volta..
- esses lençóis!
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Livro Aberto - Vitor Ramil
Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier
Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de voo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier
Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier
Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier
sábado, 23 de maio de 2009
Angélica

Mas era em morder maçãs-verdes que ficava inteira.
Cecília
tirou da planta o sangue.
bebeu. aliviou. chorou. gritou.
- me esquenta. porque não tenho cobertor...
E mendigar carinhos, não queria mais.
Tina

Desvirginou o branco de papéis.
Cuspiu na calçada
- e quanto ao dinheiro do psicólogo - Comprou um par de sapatos vermelhos, um vidro de cerejas em calda e dois ingressos pro Tango-a-Tierra, de hoje à noite.
Ligou pra ele.
Maria. Não... João e Maria

-Tem uma menina aqui, cabelo ao vento numa balança, roupa verde, tiara vermelha, sorriso inocente. Olhar em devaneio.
-Eu tinha seis... era tão colorida!
Um crachá "Em treinamento". Uma máscara de Colombina. Um atestado médico: Amigdalite.
-Quer ajuda nas tuas caixas? Tô indo aí!
-Essas são as tuas... tô tirando os Cds...
-Ah, nem precisa...
-De onde é essa chave?
-Essa chave...
-Todos os teus livros têm dedicatória...
-Teu corpo teve mais mãos.
Mais travessuras.
Mais desvarios.
Querida.
Eu te amo.
Sabe que isso é bom. É. Ter teus Cds por aqui... minha estante tá cheia agora. Teu verde não sente mais minha falta. Calor.
-A cama pode ser essa. Precisamos de um Guarda-Roupas-Nossas!
-É. Plural...
-Vou fazer um café. Queres?
-Quero, sim.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Charlotte

bebi dos líquidos mundanos.
humanos sentidos.
mastigava.
a flor.à flor da pele.
até vomitar de sedução.
esvaziar.
Noturno da Parada Amorim

Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar:
[— “Je vois des anges! Je vois des anges!” — e deixou-se escorregar sentado pela escada abaixo.
O telefone tilintou.
Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...
Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto desesperado!...
(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava gritando:
[ — “Je vois des anges! Je vois des anges!")
Manuel Bandeira
sexta-feira, 3 de abril de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Poema azul – Maria Bethânia (Sergio Ricardo)
(do Cd Mar de Sophia)
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia os cabelos do meu bem
Que olha o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu e a lua cheia
um beijo meu
“Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
Sophia de Mello Breyner
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
A carícia
Mulheres. Eduardo Galeano
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Sentou-se diante do papel vazio e escreveu: comer — olhar as frutas da feira —
ver cara de gente — ter amor — ter ódio — ter o que não se sabe e sentir um sofrimento
intolerável — esperar o amado com impaciência — mar — entrar no mar — comprar um
maio novo — fazer café — olhar os objetos — ouvir música — mãos dadas — irritação
— ter razão — não ter razão e sucumbir ao outro que reivindica — ser perdoada da
vaidade de viver — ser mulher — dignificar-se — rir do absurdo de minha condição — não
ter escolha — ter escolha — adormecer — mas de amor de corpo não falarei.
Depois dessa lista ela continuava a não saber quem ela era, mas sabia o número
indefinido de coisas que podia fazer.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Parou e sentou no banquinho da praça. Fitou aquela menina. Negrinha, de casaco rosa, parada no meio da rua em sua bicicleta. Parou ali, perdida, a observar em devaneio lilás, a borboleta.
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Luminescência
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
(Alguns) Contos de Amor Rasgados - Marina Colassanti

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Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra.
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DE FLORAÇÃO
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A mulher acordou com os seios inchados, doloridos. Tocou de leve, comentou com o marido. Na manhã seguinte os mamilos estavam duros, brilhantes. E notou que no seguir do dia modificava-se a cor, escura a princípio, quase roxa, clareando aos poucos em tons esverdeados à medida que os mamilos mais e mais erguiam suas pontas.
Compressas, pomadas, água morna. Delicado trato. Racha-se nas extremidades a pele agora fina, quase transparente. E leve cacho de carne protubera entre os lábios da fenda, projeta-se desenovelando lento e seguro a primeira pétala lilás.
Sépalas tensas, trêmulos babados. E o rijo clitóris do labelo. Nos seios da mulher duas orquídeas explodem em silêncio.
Reverente, o marido a transporta frente à janela, abre cortinas, despe blusa, que se derreta a luz no colo em primavera. Nem descuida da água, em jarra e copos, que ela bebe seguida.
Como aranhas, assim as orquídeas tecem seu perfume. Fio frágil flexível, e nunca igual. Quase indizível nos primeiros dias, doce em seguida, fazendo-se maduro, pegajoso, enquanto nas pétalas manchas escuras se alastram queimando a cor, vazando a consistência.
Bebe e bebe a mulher tentando prolongar a floração. Mas o rendado se encolhe, o lilás se retrai. Murchas passas pardas, caem enfim as orquídeas deixando nos mamilos uma gota de seiva.
Que o marido vem colher entre os dedos. Para depois, cuidadoso, segurando a tesoura nas duas mãos, podar em sangue a matriz.
domingo, 30 de novembro de 2008
De relva selvagem e marota
Ma vie en rose
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
La langue française...
Ludwig Wittgenstein
domingo, 12 de outubro de 2008
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Como as folhas secas que caem, mas permanecem no jardim, as lembranças não são varridas por completo de minh’alma. É necessário o processo de decomposição, para que o novo solo seja fecundo. Mas adubá-lo com aquilo que um dia foi vida é demais para mim. Já falei que assim não posso, não consigo. Por que deveria? Que sou eu, agora, a mais que os outros para que queiras que eu, heroicamente, sacrifique a força que me falta?
Não poder acreditar me destrói. Por que ao mesmo tempo adaptar-me é custoso.
Sobreviver a si mesmo é o maior custo.


