domingo, 13 de dezembro de 2009

Poesia fotografada


Até que a indesejada das gentes os separar

Não. Não foi tão bonito e nem tão simples assim.
Depois que desaguei rios e riachos, com correntezas inteiras em mim é que pude sentir.
E os outros. Deixei ir com outros peixes.
Que busquem seus próprios mares para desaguar salmores.
Se é de amor que salga a vida em virtudes.



Esperando na janela

... só os tamancos são felizes




pra não dizer que não falei das flores
e dos amores de verão.
Mas que adianta, me diga,
se hoje chuvisca em açúcar o mar e a mistura é um agridoce que desconhecia e só me resta sorrir feliz.
Também.
...
Também!
pernas cambaleiam.
Então fico, decidida que estou.

sábado, 22 de agosto de 2009

Uma quadra



Rua Do Amanhecer com Rua Algodão-Doce.

Maria. Treze anos. Sonhos e malabares coloridos no semáforo. Tem borboletas no estômago, lugar de fome. Ama aquele moço que passa todos os dias segurando uma maleta. Não sabe seu nome, mas ontem ele quase esbarrou nela. Pediu desculpas. Ela se apaixonou.

Rua Algodão-Doce com Rua Rubi.


Mônica. Vitrines. Pequenos prazeres em caixas e latas. Glamour. Acostumou-se tanto com a solidão, que a tomou por companheira. Presentes.



Rua Rubi com Rua Meia-Noite-e-Meia.

Pamella. Casada, dois filhos. Começou assim por vaidade. Sempre maquiada, roupas exuberantes, salto alto. Homens a procuravam. Sentia-se desejada. Agora é o marido que a manda ir pras ruas, diz que essa é sua vocação, que precisa dar comida aos filhos e tem contas a pagar. Olhos fundos por trás da maquiagem.


Rua Meia-Noite-e-Meia com Rua do Amanhecer.

Isa. Flor se despetalando em orvalho. Já teve borboletas no estômago. Desejou e sentiu-se desejada. Alugou um quarto no centro da cidade. É lá seu ateliê. Expõe abstratos dentro de si mesma. O céu em lusco-fusco. Mais um dia. Só.

....................................................................


Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.


Clarice Lispector, Água Viva

Beatriz

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país

E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Composição: Edu Lobo/Chico Buarque

ferro e vapor



naquele espaço de segundo

o trem atravessava palavras
rasgava o azul
deixava rastro de neblina

E apitando muito VELoz, mais VELOz, VELOZíssimo
retinha o incessante

Eu era só
silêncio
solto

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

sombras em azul-turquesa


Era uma noite fria. De um frio delicado, que machucava igual faca sem fio.
Pôs o disco a tocar. Era sempre a mesma canção.

Chove lá fora e aqui.

Dentro.
Espremeu-se. Experimentou-se. Não queria suportar, queria sentir a fragilidade.

Palavras ou sussurros delas ficavam borbulhando. Pareciam vir de seu estômago. Era tão ardido e cruel. Sentia que a qualquer momento iria expelir, pela boca mesmo, golfadas de uma existência inassimilável.

Abriu a boca o mais que podia.

Silenciou seus escândalos.

Escorriam lágrimas e um sumo amargo. Estremecia e já conseguia respirar aos poucos.
Era com dificuldade que sabia ser.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Confidência


É que quando se deparou com um abismo de rosas, Pedro não sabia o que fazer.
Tanto vermelho em flor. Tanto sangue derramado. Tanta vida em suavidade.
Tocou naquela que os espinhos pareciam bem definidos. Tomou-a para si.

Regou. Cultivou.
O que não sabia é que precisaria dar gotas de sangue diariamente para manter o tom escarlate da amada.

Intermitente


O banho quente lhe escaldou a pele.
O vinho tinto fervilhou suas entranhas.

superfície
artífice

Mas era de vermelhos e abstinências que se fazia em carne. Viva.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Mosaico


tinha um tubo de Tenaz na gaveta
já servia.

desperta de um sono hipnótico, a senhora cumpriu com exatidão a ordem que lhe deram
colou seus pedacinhos um a um

juntou cores, dores, estragos e cola branca
sem queixume nem revolta

fez bonito. Pendurou na sala de estar.

Cenário


Drama, ato único

mesa

Duas cadeiras

o violoncelo

clarice lispector, guimarães rosa, saramago

Tears are in your eyes

penumbra

vermelhos e verdes

o – que – não – sei

Pausa

A minha e a tua

xícara de café

chá preto com canela

madrugada

Biombo rasgado

orvalhos


Ao fundo ouve-se “Althought you don't believe me you're strong. / Darkness always turns into the Dawn. / And you won't even remember this for long.../ When it ends allright.”

O facho de luz que ilumina as faces vai progressivamente se apagando.


segunda-feira, 6 de julho de 2009


Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.


Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Clarice Lispector

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Tanto amar - Chico Buarque

Ranhuras


ó fia, feliz, feliz, num sô. mas num sei. tem horas que bate uma felicidadezinha...
o sol entrandu ansim... inté dói, sabe.
faiz favor, fia, fecha as cortina, fecha as cortina...

cicatriz. era tanta singelesa que rasgou-se o silêncio.

domingo, 7 de junho de 2009

estava à toa na vida e meu amor me chamou pra ver a banda passar cantando coisas da amor

Cigana

escolheu um retalho xadrez de um colorido bonito
- ela achava bonito -
pegou uma agulha
e, reunindo todas as forças em um só suspiro, remendou-se por dentro.
.
e costurava. e costurava.

o sangue escorria e estancava.
a lágrima não.

voltou a dançar nas esquinas.

de ir e vir


A vida sempre lhe era um susto.
em tudo era pego de surpresa.
até que um dia chupou uma mexerica.
e reconheceu Magnólia, a amada.

O ser e a rosa tácita


- Joana!?
- humm.. o que foi?
- tem uma rosa escorrendo vermelha, ali. É um vermelho morno e cansado. e bonito, também
- parece tão dissimulada, essa flor-da-pele
- ah! Ela está só desabrochando
- mas me assusta, sabe...
- é a alquimia mais divina que implora aqui
- Dói?
- Tem tanto branco lírico,em volta..
- esses lençóis!

...


Tem vezes que eu escrevo.
Que é pra não me perder de vista.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Livro Aberto - Vitor Ramil



Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier

Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de voo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier

Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier

Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier

sábado, 23 de maio de 2009

Angélica


Peralta. Fotografava a maçã-verde-mordida e sorria.
Mas era em morder maçãs-verdes que ficava inteira.

Cecília



erva-doce na xícara. água fervente.
tirou da planta o sangue.
bebeu. aliviou. chorou. gritou.

- me esquenta. porque não tenho cobertor...

E mendigar carinhos, não queria mais.

Tina


Expulsou secreções reprimidas.
Desvirginou o branco de papéis.
Cuspiu na calçada

- e quanto ao dinheiro do psicólogo - Comprou um par de sapatos vermelhos, um vidro de cerejas em calda e dois ingressos pro Tango-a-Tierra, de hoje à noite.

Ligou pra ele.

Maria. Não... João e Maria


Ainda têm coisas fora do lugar. Depois da mudança, detalhes soltos, como poeira no ar vista em câmera lenta, quase congelada. E mexer nas caixas. Ah! Como desconforta. Aquela porcelana quebrada antes. Um caderno antigo com um bilhete lembrando de um-não-esquecer.

-Tem uma menina aqui, cabelo ao vento numa balança, roupa verde, tiara vermelha, sorriso inocente. Olhar em devaneio.
-Eu tinha seis... era tão colorida!

Um crachá "Em treinamento". Uma máscara de Colombina. Um atestado médico: Amigdalite.

-Quer ajuda nas tuas caixas? Tô indo aí!
-Essas são as tuas... tô tirando os Cds...
-Ah, nem precisa...
-De onde é essa chave?
-Essa chave...
-Todos os teus livros têm dedicatória...
-Teu corpo teve mais mãos.
Mais travessuras.
Mais desvarios.
Querida.
Eu te amo.

Sabe que isso é bom. É. Ter teus Cds por aqui... minha estante tá cheia agora. Teu verde não sente mais minha falta. Calor.

-A cama pode ser essa. Precisamos de um Guarda-Roupas-Nossas!
-É. Plural...
-Vou fazer um café. Queres?
-Quero, sim.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Charlotte


eu vaguei pelo mundo de vestido vermelho e castanhos escorrendo a face.
bebi dos líquidos mundanos.
humanos sentidos.
mastigava.
a flor.à flor da pele.
até vomitar de sedução.
esvaziar.

Noturno da Parada Amorim


O violoncelista estava a meio do Concerto de Schumann
Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar:
[— “Je vois des anges! Je vois des anges!” — e deixou-se escorregar sentado pela escada abaixo.


O telefone tilintou.
Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...


Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto desesperado!...

(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava gritando:
[ — “Je vois des anges! Je vois des anges!")


Manuel Bandeira

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Andante Cantabile




fevereiro em março em branco em papel
de tempos gastos com luas e brisas e chuvas e sóis,
a sós

de nós,

sem registros semiológicos
só os sentidos
pele e saliva

de passo em falsete
de passo à toada

de compassos

líricos
ressonântes...

abril

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

amar é um elo
entre o azul
e o amarelo

Paulo Leminski

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

guarda-céu


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

"Amor é sede depois de se ter
bem bebido"


Guimarães Rosa

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Poema azul – Maria Bethânia (Sergio Ricardo)



(do Cd Mar de Sophia)


O mar beijando a areia
O céu e a lua cheia
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu
E a lua cheia
Que prateia os cabelos do meu bem
Que olha o mar beijando a areia
E uma estrelinha solta no céu
Que cai no mar
Que abraça a areia
Que mostra o céu e a lua cheia
um beijo meu

.
“Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.

A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim”


Sophia de Mello Breyner

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

em lataria, em poeirada, refLexada...


quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A carícia

Nos tempos da ditadura militar, na cidade argentina de La Plata, uma mulher procura alguma coisa que não tenha sido destruída. As forças da ordem arrasaram a casa de Maria Isabel de Mariani e ela cavuca os restos em vão. O que não roubaram, pulverizaram. Somente um disco, o Réquiem de Verdi, está intacto.
.
Maria Isabel quisera encontrar no redemoinho alguma lembrança de seus filhos e de sua neta, alguma foto ou brinquedo, livro ou cinzeiro ou o que fosse. Seus filhos, suspeitos de terem uma imprensa clandestina, foram assassinados a tiros de canhão. Sua neta de três meses, butim de guerra, foi dada ou vendida pelos oficiais.
.
É verão, e o cheiro da pólvora se mistura com o aroma das tílias que florescem. (O aroma das tílias será para sempre e sempre insuportável.) Maria Isabel não tem quem a acompanhe. Ela é mãe de subversivos. Os amigos atravessam a rua ou desviam o olhar. O telefone está mudo. Ninguém diz nada, nem ao menos mentiras. Sem ajuda de ninguém, vai enfiando em caixas os cacos de sua casa aniquilada. Tarde da noite, põe as caixas na calçada.
.
De manhã, bem cedinho, os lixeiros apanham as caixas, uma por uma, suavemente, sem batê-las. Os lixeiros tratam as caixas com muito cuidado, como se soubessem que estão cheias de pedacinhos de vida quebrada. Oculta atrás da persiana, em silêncio, Maria Isabel agradece a eles esta carícia, que é a única que recebeu desde que começou a dor.

Mulheres. Eduardo Galeano

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

E porque quebrei este ovo
me escorreu
amarela
liberdade por entre os dedos

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008


Sentou-se diante do papel vazio e escreveu: comer — olhar as frutas da feira —
ver cara de gente — ter amor — ter ódio — ter o que não se sabe e sentir um sofrimento
intolerável — esperar o amado com impaciência — mar — entrar no mar — comprar um
maio novo — fazer café — olhar os objetos — ouvir música — mãos dadas — irritação
— ter razão — não ter razão e sucumbir ao outro que reivindica — ser perdoada da
vaidade de viver — ser mulher — dignificar-se — rir do absurdo de minha condição — não
ter escolha — ter escolha — adormecer — mas de amor de corpo não falarei.
.
Depois dessa lista ela continuava a não saber quem ela era, mas sabia o número
indefinido de coisas que podia fazer.
.
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Clarice Lispector

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Além das nuvens, também, sua barba e seu andar eram grisalhos.
Parou e sentou no banquinho da praça. Fitou aquela menina. Negrinha, de casaco rosa, parada no meio da rua em sua bicicleta. Parou ali, perdida, a observar em devaneio lilás, a borboleta.
.

Luminescência


Chegou ao quarto e deitou-se. Assim mesmo, ainda molhada. Sentia a água e o sal escorrer e secar em seu corpo. A cabeça afundada no travesseiro, cabelos oleosos, soltos em madeixas castanhas. Tudo tinha o cheiro de ontem, lençol, travesseiro, pele, ela mesma.


E era bom.


Desejou ter. Como um copo d´agua quando se tem sede, ela desejou. Ali mesmo, ela queria a saliva doce, os olhos descompromissados e as mãos.


Era tão sereno o que sentia, que nem percebeu o vaso de flores amarelas e miúdas que enfeitavam o ar com idiossincrasias incômodas.


Levantou-se. Foi até o espelho e viu.


Viu que, também, girassóis enfeitavam seu rosto. Sorriu. E enquanto sorria, uma lágrima tímida e ingênua lhe escorreu pela face.


Não sabia nada. Mas queria ficar assim. Não saber tinha algo de sedutor. Sentia-se envolvida, e um arrepio desconhecido tocava sua pele, como quem se envolve em seda chinesa e abraça seu próprio corpo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

(Alguns) Contos de Amor Rasgados - Marina Colassanti




CONTO EM LETRAS GARRAFAIS
.
Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra.
...
DE FLORAÇÃO
.
A mulher acordou com os seios inchados, doloridos. Tocou de leve, comentou com o marido. Na manhã seguinte os mamilos estavam duros, brilhantes. E notou que no seguir do dia modificava-se a cor, escura a princípio, quase roxa, clareando aos poucos em tons esverdeados à medida que os mamilos mais e mais erguiam suas pontas.
Compressas, pomadas, água morna. Delicado trato. Racha-se nas extremidades a pele agora fina, quase transparente. E leve cacho de carne protubera entre os lábios da fenda, projeta-se desenovelando lento e seguro a primeira pétala lilás.
Sépalas tensas, trêmulos babados. E o rijo clitóris do labelo. Nos seios da mulher duas orquídeas explodem em silêncio.
Reverente, o marido a transporta frente à janela, abre cortinas, despe blusa, que se derreta a luz no colo em primavera. Nem descuida da água, em jarra e copos, que ela bebe seguida.
Como aranhas, assim as orquídeas tecem seu perfume. Fio frágil flexível, e nunca igual. Quase indizível nos primeiros dias, doce em seguida, fazendo-se maduro, pegajoso, enquanto nas pétalas manchas escuras se alastram queimando a cor, vazando a consistência.
Bebe e bebe a mulher tentando prolongar a floração. Mas o rendado se encolhe, o lilás se retrai. Murchas passas pardas, caem enfim as orquídeas deixando nos mamilos uma gota de seiva.
Que o marido vem colher entre os dedos. Para depois, cuidadoso, segurando a tesoura nas duas mãos, podar em sangue a matriz.

domingo, 30 de novembro de 2008

Vero ver de







Eu te procurei
em gramáticas e dicionários
até aprender a conjugar
o teu verbo verde acinzentado
.
agora falo com as pedras
e vejo que tem fumaça espalhada
dentro de mim

De relva selvagem e marota

...
Era assim toda quinta-feira.
ele a segurava pela mão. olhos de uva-verde,
talvez amadureçam, um dia.
mas, era assim.
a alma cheia de chuva e
ela rasgava todos seus sentidos e detalhes numa tentativa frenética de se dissolver ao limite e não sentir-se mais
.
ele a compreendeu,
quando se viu em reflexão imersa nos olhos de jabuticaba.

Ma vie en rose


O meu quarto é tão cor-de-rosa que me dá náusea.
há dias que não durmo
.
Acendi um incenso. talvez o odor penetrante desbote as máculas que pairam no ar.
sabe o que é.?
.
tenho me sentido.
assim
sem o limite corpóreo.
é. sou
um desenho sem contorno
...
ahh... deixa eu ver... - não gostei, assim!
...
-Por favor!? Ei! Ei!! Você pode... pode, por favor, me completar?
- Ãhnn?
- É! Não.. quero dizer... tô sem contorno, sabe!? Você me completa? Faz um traço fino. pode ser em sépia.
- Putz! desculpa, menina. agora não dá. tô com a mão trêmula. Pra esse trabalho é preciso firmeza nas mãos, senão te machuco...
- Ah... tá... então, tá..., ..., ...!???
...
É isso. não ganhei. não perdi.
talvez
mas, só talvez
eu tenha perdido mais do que tinha
.
mas eram só arestas
.
e dái!? continuo sem contorno!
...
O incenso acabando... e
só porque, também eu - como sacrifício ritualmente queimado
, me esvaio
ninguém precisa saber
que escolhi aroma
de terra com flores esbranquiçadas
pra hoje à noite.


segunda-feira, 3 de novembro de 2008


É tão vasta a noite na montanha. Tão despovoada. A noite espanhola tem o
perfume e o eco duro do sapateado da dança, a italiana tem o mar cálido mesmo se
ausente. Mas a noite de Berna tem o silêncio.
Tenta-se em vão ler para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo, inventar
um programa, frágil ponte que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã.
Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Montanhas tão altas que o desespero tem
pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor.
Nenhum galo possível. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio?
Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te abençoar?
É um silêncio, Ulisses, que não dorme: é insone: imóvel mas insone e sem
fantasmas. É terrível — sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade
de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e "diga" alguma coisa.
Ele é vazio e sem promessa. Como eu, Ulisses? Se ao menos houvesse o vento. Vento é
ira, ira é a vida. Mas nas noites que passei em Berna não havia vento e cada folha estava
incrustada no galho das árvores imóveis. Ou se fosse época de cair neve. Que é muda
mas deixa rastro — tudo embranquece, as crianças riem brincando com os flocos, os
passos rangem e marcam. Isso durante o dia é tão intenso que a noite ainda é povoada.
Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar
do silêncio como se fala da neve. O silêncio é a profunda noite secreta do mundo. E não
se pode falar do silêncio como se fala da neve: sentiu o silêncio dessas noites? Quem
ouviu não diz. Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele e de adorá-lo
sem palavras.
A noite, Ulisses, desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas,
com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as
últimas portas. As ruas brilham nas lajes e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes
das casas. Só um ou outro poste iluminado para iluminar o silêncio.
Mas este primeiro silêncio, Ulisses, ainda não é o silêncio. Que se espere, pois
as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com
esperança pelas escadas.
Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e
da Terra e da Lua. Então ele, o silêncio, aparece. E o coração bate ao reconhecê-lo: pois
ele é o de dentro da gente.
Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e
para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento
pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar
uma resposta — como arde, Ulisses, por ser chamada e responder; — cedo se descobre
que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Mas isto os da maçonaria sabem.
Quantas horas perdi na escuridão supondo que o silêncio te julga — como esperei em
vão ser julgada pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas,
humildes desculpas até à indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua
indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de
nascença.
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Clarice Lispector

La langue française...


"La solution de l'énigme de la vie dans l'espace et le temps se trouve hors de l'espace et du temps."

Ludwig Wittgenstein

domingo, 12 de outubro de 2008

vou fazer assim, então. enquanto tiver tinta nesta caneta vou continuar escrevendo. E ponto. Promessa barata! ninguém. ninguém pra saber. que esse é meu mais doloroso e ardido grito. o quanto isso me é custoso. a quantidade de líquidos e secreções que se misturam. dentro. fora.
- acaba, tinta, acaba!
ou meus cabelos e unhas e dentes e pele não aguentarão mais. talvez trancar a respiração. engolir tudo em seco. e
- não adiantou!
minuto-a-minuto-segundo-a-segundo. Acovardo. descubro que vinte minutos é o máximo. e do auge declino. só. ou tudo isso.
depende...
depende.
É. depende de quem olha.
...

terça-feira, 9 de setembro de 2008


Um misto de opostos... Antítese. A palavra é pequena para traduzir-me em essência e, assim, o que fica é muito mais do que eu suporto.
Como as folhas secas que caem, mas permanecem no jardim, as lembranças não são varridas por completo de minh’alma. É necessário o processo de decomposição, para que o novo solo seja fecundo. Mas adubá-lo com aquilo que um dia foi vida é demais para mim. Já falei que assim não posso, não consigo. Por que deveria? Que sou eu, agora, a mais que os outros para que queiras que eu, heroicamente, sacrifique a força que me falta?
Não poder acreditar me destrói. Por
que ao mesmo tempo adaptar-me é custoso.
Sobreviver a si mesmo é o maior custo.