sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

A carícia

Nos tempos da ditadura militar, na cidade argentina de La Plata, uma mulher procura alguma coisa que não tenha sido destruída. As forças da ordem arrasaram a casa de Maria Isabel de Mariani e ela cavuca os restos em vão. O que não roubaram, pulverizaram. Somente um disco, o Réquiem de Verdi, está intacto.
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Maria Isabel quisera encontrar no redemoinho alguma lembrança de seus filhos e de sua neta, alguma foto ou brinquedo, livro ou cinzeiro ou o que fosse. Seus filhos, suspeitos de terem uma imprensa clandestina, foram assassinados a tiros de canhão. Sua neta de três meses, butim de guerra, foi dada ou vendida pelos oficiais.
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É verão, e o cheiro da pólvora se mistura com o aroma das tílias que florescem. (O aroma das tílias será para sempre e sempre insuportável.) Maria Isabel não tem quem a acompanhe. Ela é mãe de subversivos. Os amigos atravessam a rua ou desviam o olhar. O telefone está mudo. Ninguém diz nada, nem ao menos mentiras. Sem ajuda de ninguém, vai enfiando em caixas os cacos de sua casa aniquilada. Tarde da noite, põe as caixas na calçada.
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De manhã, bem cedinho, os lixeiros apanham as caixas, uma por uma, suavemente, sem batê-las. Os lixeiros tratam as caixas com muito cuidado, como se soubessem que estão cheias de pedacinhos de vida quebrada. Oculta atrás da persiana, em silêncio, Maria Isabel agradece a eles esta carícia, que é a única que recebeu desde que começou a dor.

Mulheres. Eduardo Galeano

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

E porque quebrei este ovo
me escorreu
amarela
liberdade por entre os dedos

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008


Sentou-se diante do papel vazio e escreveu: comer — olhar as frutas da feira —
ver cara de gente — ter amor — ter ódio — ter o que não se sabe e sentir um sofrimento
intolerável — esperar o amado com impaciência — mar — entrar no mar — comprar um
maio novo — fazer café — olhar os objetos — ouvir música — mãos dadas — irritação
— ter razão — não ter razão e sucumbir ao outro que reivindica — ser perdoada da
vaidade de viver — ser mulher — dignificar-se — rir do absurdo de minha condição — não
ter escolha — ter escolha — adormecer — mas de amor de corpo não falarei.
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Depois dessa lista ela continuava a não saber quem ela era, mas sabia o número
indefinido de coisas que podia fazer.
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Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Clarice Lispector

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Além das nuvens, também, sua barba e seu andar eram grisalhos.
Parou e sentou no banquinho da praça. Fitou aquela menina. Negrinha, de casaco rosa, parada no meio da rua em sua bicicleta. Parou ali, perdida, a observar em devaneio lilás, a borboleta.
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Luminescência


Chegou ao quarto e deitou-se. Assim mesmo, ainda molhada. Sentia a água e o sal escorrer e secar em seu corpo. A cabeça afundada no travesseiro, cabelos oleosos, soltos em madeixas castanhas. Tudo tinha o cheiro de ontem, lençol, travesseiro, pele, ela mesma.


E era bom.


Desejou ter. Como um copo d´agua quando se tem sede, ela desejou. Ali mesmo, ela queria a saliva doce, os olhos descompromissados e as mãos.


Era tão sereno o que sentia, que nem percebeu o vaso de flores amarelas e miúdas que enfeitavam o ar com idiossincrasias incômodas.


Levantou-se. Foi até o espelho e viu.


Viu que, também, girassóis enfeitavam seu rosto. Sorriu. E enquanto sorria, uma lágrima tímida e ingênua lhe escorreu pela face.


Não sabia nada. Mas queria ficar assim. Não saber tinha algo de sedutor. Sentia-se envolvida, e um arrepio desconhecido tocava sua pele, como quem se envolve em seda chinesa e abraça seu próprio corpo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

(Alguns) Contos de Amor Rasgados - Marina Colassanti




CONTO EM LETRAS GARRAFAIS
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Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava dentro sua mensagem, e entregava ao mar.
Nunca recebeu resposta.
Mas tornou-se alcoólatra.
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DE FLORAÇÃO
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A mulher acordou com os seios inchados, doloridos. Tocou de leve, comentou com o marido. Na manhã seguinte os mamilos estavam duros, brilhantes. E notou que no seguir do dia modificava-se a cor, escura a princípio, quase roxa, clareando aos poucos em tons esverdeados à medida que os mamilos mais e mais erguiam suas pontas.
Compressas, pomadas, água morna. Delicado trato. Racha-se nas extremidades a pele agora fina, quase transparente. E leve cacho de carne protubera entre os lábios da fenda, projeta-se desenovelando lento e seguro a primeira pétala lilás.
Sépalas tensas, trêmulos babados. E o rijo clitóris do labelo. Nos seios da mulher duas orquídeas explodem em silêncio.
Reverente, o marido a transporta frente à janela, abre cortinas, despe blusa, que se derreta a luz no colo em primavera. Nem descuida da água, em jarra e copos, que ela bebe seguida.
Como aranhas, assim as orquídeas tecem seu perfume. Fio frágil flexível, e nunca igual. Quase indizível nos primeiros dias, doce em seguida, fazendo-se maduro, pegajoso, enquanto nas pétalas manchas escuras se alastram queimando a cor, vazando a consistência.
Bebe e bebe a mulher tentando prolongar a floração. Mas o rendado se encolhe, o lilás se retrai. Murchas passas pardas, caem enfim as orquídeas deixando nos mamilos uma gota de seiva.
Que o marido vem colher entre os dedos. Para depois, cuidadoso, segurando a tesoura nas duas mãos, podar em sangue a matriz.