sábado, 22 de agosto de 2009

Uma quadra



Rua Do Amanhecer com Rua Algodão-Doce.

Maria. Treze anos. Sonhos e malabares coloridos no semáforo. Tem borboletas no estômago, lugar de fome. Ama aquele moço que passa todos os dias segurando uma maleta. Não sabe seu nome, mas ontem ele quase esbarrou nela. Pediu desculpas. Ela se apaixonou.

Rua Algodão-Doce com Rua Rubi.


Mônica. Vitrines. Pequenos prazeres em caixas e latas. Glamour. Acostumou-se tanto com a solidão, que a tomou por companheira. Presentes.



Rua Rubi com Rua Meia-Noite-e-Meia.

Pamella. Casada, dois filhos. Começou assim por vaidade. Sempre maquiada, roupas exuberantes, salto alto. Homens a procuravam. Sentia-se desejada. Agora é o marido que a manda ir pras ruas, diz que essa é sua vocação, que precisa dar comida aos filhos e tem contas a pagar. Olhos fundos por trás da maquiagem.


Rua Meia-Noite-e-Meia com Rua do Amanhecer.

Isa. Flor se despetalando em orvalho. Já teve borboletas no estômago. Desejou e sentiu-se desejada. Alugou um quarto no centro da cidade. É lá seu ateliê. Expõe abstratos dentro de si mesma. O céu em lusco-fusco. Mais um dia. Só.

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Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio. Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas - escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.


Clarice Lispector, Água Viva

Beatriz

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país

E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Composição: Edu Lobo/Chico Buarque

ferro e vapor



naquele espaço de segundo

o trem atravessava palavras
rasgava o azul
deixava rastro de neblina

E apitando muito VELoz, mais VELOz, VELOZíssimo
retinha o incessante

Eu era só
silêncio
solto

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

sombras em azul-turquesa


Era uma noite fria. De um frio delicado, que machucava igual faca sem fio.
Pôs o disco a tocar. Era sempre a mesma canção.

Chove lá fora e aqui.

Dentro.
Espremeu-se. Experimentou-se. Não queria suportar, queria sentir a fragilidade.

Palavras ou sussurros delas ficavam borbulhando. Pareciam vir de seu estômago. Era tão ardido e cruel. Sentia que a qualquer momento iria expelir, pela boca mesmo, golfadas de uma existência inassimilável.

Abriu a boca o mais que podia.

Silenciou seus escândalos.

Escorriam lágrimas e um sumo amargo. Estremecia e já conseguia respirar aos poucos.
Era com dificuldade que sabia ser.